Andrea Eboli
Artigo17 de setembro de 2026·4 min de leitura

O poder que entregamos sem perceber: o que uma pesquisa com 400 pessoas revelou

Apenas 8% das mais de 400 pessoas entrevistadas sentiam que o poder era delas. Andrea Eboli investiga por que entregamos nosso poder a cargos, relações e conquistas, e o que seria preciso para puxá-lo de volta.

Uma pergunta que veio da vida executiva

Durante muitos anos, minha vida foi a de uma executiva. Foi de dentro dela que a pergunta começou a me incomodar. Eu via pessoas que buscavam tudo o que haviam imaginado, trabalho, carreira, filhos, família, e não se sentiam realizadas. E via também o oposto: pessoas que perdiam um crachá, passavam por uma demissão ou por uma separação, e diziam que a vida inteira desabava.

A mesma pergunta servia para os dois casos. Que poder é esse, que a gente entrega tão facilmente ao que está fora? Foi para respondê-la que passei a pesquisar, a conversar, a investigar. A pesquisa reuniu mais de 400 pessoas.

O que os números disseram

O resultado foi mais duro do que eu esperava. Quando perguntávamos onde essas pessoas sentiam que estava o poder, quase todas apontavam para fora: para outras pessoas, para as circunstâncias, para o que tinham. Apenas 8% diziam sentir que o poder era delas.

Oito por cento. O número escancara uma dificuldade que carregamos quase sem perceber: a de reconhecer quem nós somos. Ao longo da vida, aprendemos a nos afastar da própria identidade. E quando algo externo se rompe, parece que perdemos poder até sobre nós mesmos.

Como o poder vai sendo entregue

Isso não acontece de uma vez. Acontece aos poucos, por camadas culturais e sociais. Desde cedo ouvimos que precisamos ter um bom casamento, ser independentes financeiramente, corresponder. Quando trazemos essas exigências para dentro, começamos a dar poder a elas.

Daí nasce um movimento que reconheço em quase todo mundo. Quando o trabalho não nos faz felizes, trabalhamos mais, para ver se a felicidade chega. Quando o casamento não vai bem, nos dedicamos mais a ele, pela mesma esperança. Como nunca é suficiente, damos ainda mais, e a consciência pesa, porque dar de um lado é falhar no outro.

O pêndulo

Chamo isso de pêndulo. De um lado, entregamos cada vez mais poder, buscando uma satisfação que não vem. Do outro, quando a estafa aparece, tentamos nos curar: anos de terapia, práticas que surgem por aí, viagens que compensam por um instante. E depois voltamos ao mesmo lugar.

Os dois lados parecem opostos, mas são o mesmo gesto. Nenhum deles devolve o poder para você, porque os dois continuam apostando que a solução está em algum extremo.

O poder consciente não está lá nem cá. Está no meio. Está na hora em que você diz: meu poder não está neste extremo, nem naquele. Meu poder está em como eu lido com essas duas forças e em como eu ajo dentro do cenário da vida. Porque a vida continua: é preciso trabalhar, cuidar de quem se ama, administrar tudo isso. A questão é puxar o poder de volta para si e parar de entregá-lo, nem às pessoas, nem às situações.

Os véus e o rosto

Não se trata de recusar os papéis. Está tudo certo em querer ser um bom profissional, uma boa mãe, um bom amigo. Está tudo certo em ser ambicioso. Costumo usar a imagem dos véus: você vai vestindo esses papéis ao longo da vida, e cada um deles tem seu lugar.

O risco é confundir o véu com o rosto. Quando eu sei quem sou dentro de uma relação, não dou poder ao outro, porque o poder já é meu. Entendo meu potencial, entendo por que estou ali, e fico menos refém. O problema nunca foi ter casamento, trabalho ou conquistas. Foi depender deles para saber quem somos.

Três pilares para recuperar o poder

A pesquisa apontou algo concreto. As pessoas que reuniam três características eram muito mais propensas a enxergar o próprio poder interno.

  • Identidade: quem eu sou dentro do mundo. Não basta olhar só para dentro, porque para dentro a gente também olha com os próprios traumas e com aquilo que quer ver. É preciso perguntar o que o mundo enxerga de mim.
  • Contexto: o cenário em que estou inserido. Reconhecer esse cenário e perguntar como eu, com a minha identidade, me posiciono nele.
  • Ação: agir levando em conta identidade e contexto. Só me conhecer, sem agir, faz com que minhas relações e o que quero colocar no mundo não andem.

Esses três pilares são a base da Estrutura Consciente de Poder. Eles não funcionam separados. Você reconhece quem é, lê onde está e escolhe como agir sem ser arrastado.

Esse é o caminho entre Ter Poder e Ser Poder: sair de uma potência condicionada ao que se tem e chegar a uma potência que não desaparece quando cargos, relações e reconhecimento mudam. Saber disso já é começar. É a partir daqui que se para de entregar o próprio poder, e se passa a dizer: o poder é meu.

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