Andrea Eboli
Artigo1 de outubro de 2026·4 min de leitura

Quem é você quando tiram o crachá?

Andrea Eboli investiga por que tantas pessoas acumulam cargos e conquistas, mas continuam dependendo da validação externa. E o que permanece quando o reconhecimento desaparece.

Um homem de terno no café, sem ter para onde ir

Depois de se aposentar, ele continuava indo todos os dias ao Starbucks na frente do antigo escritório. Vestido de terno. Sentava, abria o computador e trabalhava diante do prédio onde já não entrava. Quando perguntaram por quê, respondeu que não tinha para onde ir: não desenvolveu hobbies, perdeu a família ao longo do caminho, e a vida inteira coube dentro de um trabalho.

Esse caso, contado por Andrea Eboli em entrevista ao programa Manhã Z, não é sobre um homem. É sobre o que acontece quando alguém entrega a própria identidade a um papel funcional e esse papel, um dia, desaparece. Porque ele vai desaparecer. Faz parte da vida.

O mundo nos ensinou a TER, não a SER

Depois de mais de 25 anos no mundo executivo, vivendo em diferentes países e convivendo com pessoas muito diferentes, Andrea começou a notar um padrão. As pessoas ficavam condicionadas a um poder que lhes era dado, atrelado a papéis que precisavam exercer. O bom profissional. A boa mãe. A boa esposa. E, aos poucos, entregavam esse poder às instituições, às relações, ao trabalho. Até que, quando perdiam o papel, perdiam a si mesmas.

Daí nasceu a investigação. E os números são desconcertantes. Na pesquisa de Andrea, 80% das pessoas acreditam que o poder está fora delas. Apenas 8% reconhecem que ele mora dentro. Mais estranho ainda: 60% daqueles que colocam o poder no externo querem continuar buscando exatamente isso, apostando que a felicidade chega quando vier o próximo cargo, o próximo reconhecimento, a próxima validação. Esse dia, muitas vezes, não chega.

É a diferença entre TER poder e SER poder. TER poder é a potência condicionada a algo que precisamos manter ou receber. SER poder é não depender daquilo que temos para reconhecer quem somos. Ter sucesso, prestígio e reconhecimento não impede o vazio, porque quem vive um modelo entregue por fora pode ter tudo o que define o poder externo e ainda assim não se sentir realizado.

O pêndulo entre o estresse e a cura

Andrea descreve o movimento em que vivemos como um pêndulo. De um lado, o estresse de provar valor, de ser reconhecido, de corresponder. Quando isso cansa, vamos para o outro lado: a busca por cura, as terapias, as meditações, o descanso, as viagens. E depois voltamos ao caos. Oscilamos entre curar e entregar de novo o nosso poder.

O poder consciente não está em nenhum dos extremos. Está no centro do pêndulo: o lugar a partir do qual você pode continuar tendo seus momentos de estresse e seus momentos de lazer, mas sem ser arrastado por nenhum deles. O equilíbrio é conviver com os dois, não escolher um.

Identidade, contexto e ação

A estrutura consciente de poder articula uma tríade. A primeira dimensão é a identidade: quem você é dentro da sua história, com gratidão pelo que construiu, para além do autoconhecimento genérico. A segunda é o contexto: não basta saber quem você é no abstrato, é preciso saber quem você é dentro das reuniões, das relações, dos lugares reais. Como diz Andrea, você pode achar que é tudo isso e, no primeiro encontro com a realidade, sentir o mundo desabar. Você continua sendo quem é. O mundo é que não se controla. A terceira dimensão é a ação coerente: agir a partir de quem você é, não ser conduzido automaticamente pelo que o contexto espera.

O que a inteligência artificial não substitui

Em época de inteligência artificial, o controle já não existe, e boa parte do trabalho passará a ser feito por máquinas. A pergunta que resta é: o que sobra para nós? Consciência. Liderança humana. A capacidade de lidar com pessoas que também têm histórias, de conduzir a partir de quem se é, e não do cargo que se ocupa. Quem vai se diferenciar é quem tiver mais consciência de como transitar nesse cenário.

A pergunta que fica

Perto do fim da entrevista, veio a pergunta que organiza toda a pesquisa: se amanhã seu cargo, seus títulos e todos os seus reconhecimentos desaparecessem, o que permaneceria em você? A resposta de Andrea foi sobre a relação com a própria vida, a gratidão pelo que conquistou, os valores, aquilo que ela acredita, aquilo que transborda dela para o mundo.

Não é uma fórmula para controlar a vida. É uma estrutura para não desaparecer dentro dela. E a pergunta não é para responder uma vez. É para se fazer sempre.