Andrea Eboli
Artigo23 de setembro de 2026·4 min de leitura

Nunca se falou tanto em autenticidade, e nunca se fingiu tanto ser autêntico

A autopromoção não nasceu com as redes sociais. Ela apenas trocou de roupa. Uma investigação sobre por que a necessidade de ser visto continua nos capturando, e o que muda quando o reconhecimento começa por dentro.

A mesma necessidade, um cenário novo

Nunca se falou tanto em autenticidade. E, no entanto, nunca se fingiu tanto ser autêntico. Vale reparar em como isso aconteceu sem que quase ninguém percebesse.

Há algum tempo, a autopromoção tinha endereços conhecidos: os eventos, os palcos corporativos, os cafés estratégicos, os jantares de negócio. Ela continua existindo, só que migrou de roupa. Hoje veste filtros, hashtags e frases inspiradoras. Mudou o cenário, o roteiro é o mesmo. No centro dele, uma necessidade muito humana: ser visto, mesmo que à custa de si mesmo.

A engenharia da aparência

Quando comecei a escrever, procurei um especialista em construção de reputação online. Ele me deu três conselhos que eram valiosos para ele e inúteis para mim.

O primeiro: publicar todos os dias e marcar pessoas importantes, mesmo sem conhecê-las, porque isso amplia o alcance. Pensei no mecanismo por trás. Eu escrevo algo raso, elogio meia dúzia de pessoas que, pelo próprio ego, vão repostar o elogio vazio, e a mágica acontece. Construiria reputação não pelo que penso, sou ou entreguei, mas por quem consigo marcar. O segundo conselho: comentar em muitos posts, qualquer coisa, sem precisar fazer sentido, só para engajar. O terceiro: deixar o computador aberto no LinkedIn por horas para parecer ativa e responder tudo no minuto em que chega.

Não segui nenhum deles. E ele virou Top Voice. Fica a pergunta: para que serve esse título, senão para apontar alguém cuja prática e discurso inspiram outras pessoas? Para mim, ser Top Voice é ter voz. Uma voz onde a verdade fala e entrega.

Por que a fórmula funciona e ainda assim não basta

É importante ser honesta: essas táticas funcionam. Elas produzem números reais. O problema não está na eficiência, está no que elas exigem para continuar funcionando. Uma presença montada por fora precisa ser alimentada por fora, todos os dias, sem intervalo. É o que chamo de Ter Poder: uma potência condicionada a algo que você precisa manter sem parar. No instante em que você desacelera, ela começa a desaparecer.

Há um custo mais silencioso também. Quando o reconhecimento passa a vir de fora, o lado de fora passa a decidir o seu valor. É A Entrega do Poder: você entrega a um sistema de curtidas e alcance a tarefa de dizer quanto você vale. E esse sistema nunca conclui a tarefa, porque cada post recomeça a cotação do zero.

O reconhecimento que começa por dentro

Quando escrevo, seja aqui, em aulas, projetos ou palestras, há um pedaço de mim em tudo. Nada disso poderia ser feito por outra pessoa, porque a minha experiência está no que eu entrego. Um discurso vazio pode gerar impacto por um momento. Mas o reconhecimento que sustenta precisa começar dentro. O externo é mais fácil: seguir tendências, usar ganchos, comentar o óbvio, assinar em nome da empresa. A questão é se isso traz alguma realização.

Esse deslocamento, do reconhecimento que vem de fora para o que começa dentro, é o que chamo de Ser Poder: uma potência que não depende daquilo que você tem para reconhecer quem você é. Ela não some quando os números caem, porque não foi construída sobre eles.

A prova aparece na liderança

Em nenhum lugar isso fica tão visível quanto no tema da liderança. Escrever sobre liderança é fácil, ainda mais com a ajuda da inteligência artificial. Difícil é ser o líder que escreve o que faz e o que aprendeu com a vida.

Não estou dizendo que bons líderes não erram. Erram. Às vezes demitem injustamente, às vezes falham, às vezes não são justos. Mas liderar de verdade não é parecer perfeito, é ser humano. É ter errado, aprendido, transformado pessoas e oferecido valor além do cargo. Simon Sinek diz que liderança não é estar no comando, é cuidar de quem está sob o seu cuidado. E Ralph Waldo Emerson resume o que importa: o que você faz fala tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz.

O que fica quando o algoritmo se cala

Talvez o caminho autêntico demore. Talvez não seja simples nem acelerado. Mas, quando é feito com verdade, ele se torna maior do que resultados: vira uma expressão coerente de quem você é. Liderança não é sobre velocidade, é sobre profundidade. Não é sobre a quantidade de vozes, é sobre a qualidade da presença. E não é sobre conquistar multidões, é sobre transformar de fato as pessoas ao seu lado, sejam uma ou milhares.

Grandes transformações e as pessoas que realmente acreditam no seu trabalho não nascem do algoritmo. Nascem da coragem de ser quem você é, mesmo quando isso rende menos alcance. Esse é o terreno onde a autenticidade deixa de ser palavra bonita e vira prática.