Duas gerações, dois caminhos, uma mesma pergunta
No último episódio da temporada 4 do Gerações Cast, sentamos com dois convidados que parecem opostos. Marcos é diretor de produto, tem 46 anos e 32 de carteira assinada — começou como office boy em 1993 e hoje conduz uma marca de quase 130 anos. Giovana tem 24 anos, é influenciadora digital, dona da própria agência de social media e largou a CLT no fim do ano passado para construir o que chama de seu império.
O tema está na moda: largar a CLT vale mesmo a pena? Mas a conversa rapidamente mostrou que essa é a pergunta errada.
Não existe certo ou errado — existe estação
A frase mais lúcida da noite veio de Giovana: "vai da estação de cada pessoa". Ela foi CLT quando precisava ser CLT, depois da perda do pai, quando a mãe disse que era hora de trabalhar. Trabalhou de segunda a sábado, chorou por não ter tempo de gravar conteúdo, e só virou a chave quando teve clareza de onde queria chegar.
Marcos, do outro lado da mesa, não defende uma cadeira só. Aos 46 anos, ele já fala em propósito de vida — não mais em propósito corporativo — e sonha em trabalhar com gastronomia. A diferença não é quem está certo. É o momento de vida, o perfil e o que cada um está disposto a enfrentar.
O sobrenome corporativo é uma armadilha
Um dos pontos mais fortes do episódio: o mundo corporativo te ensina a ter um sobrenome. Você vira "o da Caloi", "a da Natura". O empreendedor, ao contrário, é o próprio sobrenome — Giovana é quem ela é.
Existe um certo glamour no mundo corporativo, e essa é a grande armadilha: você se apoiar nele.
Viagens internacionais, verba de roupa, carro à disposição, fornecedores que viviam no seu celular. Quando o vínculo termina — por demissão ou aposentadoria — tudo isso desaparece de uma vez. Comentamos a história, vivida por muitos, de quem passou a se arrumar todo dia para sentar no Starbucks em frente ao antigo escritório, sem saber o que fazer da vida. São as chamadas correntes de ouro: confortáveis, mas que prendem.
Quem planta para o futuro e quem planta para o curto prazo
Há uma sutileza no jeito de Giovana trabalhar que revela a diferença essencial entre os dois mundos: ela fecha contratos com marcas a cada três meses, não publis avulsas. Isso é previsibilidade, relacionamento, construção. Ela está na maratona, não na corrida de curta distância.
O mundo corporativo, por outro lado, está cada dia mais líquido. A cadeira do CEO no Brasil dura de 2 a 3 anos; diretores seguem ciclos curtos; decisões são tomadas para garantir o bônus daquele ano. O executivo, com salário garantido no fim do mês, vive uma comodidade que o empreendedor não tem — mas paga o preço de muitas vezes plantar só para o presente.
Seja empreendedor da própria vida — mesmo dentro da CLT
O etarismo existe e vai continuar existindo. Cada geração chega com mais desenvoltura, mais facilidade, mais impulso. Por isso, mesmo quem ama o mundo corporativo precisa desenvolver uma veia empreendedora: porque em algum momento o conforto acaba e o prazo de validade chega.
Ser empreendedor da própria vida significa se organizar, buscar conhecimento por conta própria, ler, se atualizar — algo que a rotina corporativa raramente exige e até atrofia. E significa, sobretudo, começar a trabalhar nos seus sonhos durante, não depois. Como mentora de executivos, ouço muitos dizerem que querem sair do mundo corporativo. A primeira pergunta é sempre: e qual é o seu sonho? O que vem depois? Quem não sabe responder não está pronto para o salto.
Autoconhecimento, experimentação e autenticidade
Três ferramentas atravessaram toda a conversa:
- **Autoconhecimento** mede a sua probabilidade de dar certo. Se você depende totalmente dos outros, vai se frustrar empreendendo.
- **Experimentação** evita o salto cego. Use o mindset de startup: teste rápido, erre rápido, antes de apostar tudo.
- **Autenticidade** ajuda nos dois caminhos. Quem faz tudo o que os outros querem está condicionado — mas o rebelde, que faz o oposto do esperado, também está. Busque a sua verdade, não a reação aos outros.
E o futuro? Talvez híbrido, talvez não
Vai surgir mais empreendedor, mas as corporações não vão desaparecer — alguém terá que alimentar o quarter, o forecast, o resultado. A grande dúvida é quem serão os profissionais CLT de gerações tão empreendedoras quanto a de Giovana. O caminho híbrido, em que se trabalha para uma empresa e se mantém um negócio paralelo, já é realidade para muitos. Mas a transição não será tão rápida: o peso do apoio familiar e das escolhas culturais ainda é enorme.
O conselho que fica
Encerramos com a pizza da Luísa — o quadro em que pedimos um conselho que valha a pena guardar:
Comece pequeno, com o que você tem. Nunca é tarde. Não deixe o medo ser o resultado do seu propósito. Tenha clareza, tenha coragem, e lembre-se de que a vida são ciclos.
Seja CLT, seja empreendedor, seja professor ou funcionário público. O que importa é que seja a sua escolha — e que você esteja bem, fazendo aquilo com amor.
